Viagens de barco e de trem pela Suíça voltaram ao topo da wishlist dos viajantes. Meu palpite? Queremos aproveitar nosso bem mais valioso: o tempo.
O ritmo do trem nos convida a desacelerar e observar a transformação das paisagens na janela. Navegar pelos lagos amplia essa experiência e é quando percebemos as cores de cada estação, o reflexo das montanhas na água e o ritmo constante dos rios.
É, justamente, desde o melhor lugar do mundo para embarcar em uma viagem sobre trilhos e entre lagos que começamos nossa jornada.
Ponto de partida: Zurique, onde tudo funciona



Zurique é o único centro financeiro de um país que guarda nascentes e rios cristalinos, muito diferente de São Paulo, de onde descrevo esta viagem. Por lá, cada suíço que volta do trabalho nadando pelo Rio Limmat ficaria horrorizado com o trânsito da Marginal.
Nosso hotel, o The Home, é uma mistura de museu de arte moderna com a casa de uma avó maximalista. O mobiliário em tons de roxo, turquesa e laranja recebe com humor os viajantes, enquanto os tecidos felpudos e a lareira central convidam para um coquetel de boas-vindas. É no lobby do hotel que funciona o restaurante LouLou, que recebe não-hóspedes com um menu internacional focado na gastronomia francesa.
Minha primeira forma de descrever Zurique é: “um lugar onde tudo funciona”. O transporte público é pontual e usado por todos (inclusive convidados de traje a rigor a caminho de um casamento), os patrimônios culturais são preservados e as fontes de água fresca espalhadas pela cidade mostram que ela pode, e deve, ser recorrida à pé.


Caminhando pela passarela às margens do Lago de Zurique, músicos, artistas e as famosas Badis (do alemão Bade, banho) com suas piscinas que ficam cheias no verão, nos levam até restaurantes.
Um deles é o Fischerstube, construído em um píer, que serve um famoso foundue de peixe e vistas para o pôr do sol. O prato para dividir é servido com peixes de água doce, como trutas e salmão suíço, acompanhados de vegetais em conserva e caldo de legumes.
Chur: a cidade mais antiga da Suíça
Desde a moderna Zurique embarcamos rumo ao vilarejo de Chur, para o check-in em um hotel com mais de 300 anos de história. Estamos no maior dos cantões da Suíça, o “Cantão dos Grisões”, que além de fazer fronteira com a Itália e Leichtenstein guarda um idioma pouco conhecido: o romanche.
O Hotel Stern, de apenas três andares, oferece uma experiência suíça, especialmente tradicional deste cantão. Desde o café da manhã, que é servido pelo staff com trajes tradicionais até os quartos, que são decorados entre vigas de madeira maciça, um telhado triangular e uma pequena janela bem alta.

Chegamos no início do outono, quando os moradores de Chur aproveitam para andar de bicicleta e encontrar os amigos em mesas de bares ao ar livre. Tudo isso antes dos primeiros dias do inverno.
O vilarejo é conhecido também por suas fontes de água (são 165 espalhadas por poucas ruas), por suas igrejas e por seus vinhos de alta qualidade. Infelizmente, a produção é limitada e quase não alcança para a sede dos moradores. Assim, quem quer provar um rótulo produzido na cidade mais antiga do país, não tem outra escolha a não ser viajar para a Suíça.
De Glacier Express para Andermatt: refúgio luxuoso de esqui


O Glacier Express, trem panorâmico com uma das rotas mais lindas do país, freia na estação de Chur. As malas já haviam sido despachadas pelo serviço door to door da SBB. Era o momento de embarcar na primeira rota por lagos e montanhas, na primeira classe, para Andermatt.
Além de ter janelas enormes nas laterais, o serviço conta com um menu de três tempos e o Spätzle, uma massa tradicional da região. Para os curiosos, fones de ouvido vão descrevendo toda a história e geografia da viagem. No meio do caminho, há uma parada para fotografias e a troca da locomotiva para o trecho final, mais íngreme.
Descemos em Andermatt com uma garoa fina, no sul do cantão de Uri. Mas o tempo não nos impediu de admirar essa vila luxuosa entre os Alpes Suíços. Além de ser um refúgio de esqui para celebridades, o destino encanta por combinar natureza das montanhas e vales com experiências 5 estrelas de bem-estar, como as do Spa do Hotel The Chedi.
Jungfraujoch, a estação mais alta da Europa

Com o novo teleférico Eiger Express, de alta velocidade, saímos das pradarias com vaquinhas leiteiras de Grindelwald, para a conexão com a mais alta estação de trem do continente. Desde seus 3.454 metros, a vista panorâmica enquadra o trio icônico dos Alpes Berneses: Eiger, Mönch e, é claro, Jungfrau.
A caminhada é pela vista, mas também pelos glaciares. Estamos em um Patrimônio da UNESCO conhecido por seu “gelo eterno”. Como estimativa, se a Geleira Aletsch derretesse, cada pessoa na Terra poderia receber um litro de água por dia durante 3,5 anos.



Em uma pequena porção desta gigante, um parque de diversões de inverno se formou. Atividades como tirolesa, esqui, bares com chocolates quentes e até um Palácio de gelo fazem parte da visita. Passamos por um túnel dentro da geleira e por uma exposição com grandes nomes da música e do esporte que já viveram momentos aos pés do monte Jungfrau.
Entre lagos: uma viagem de barco por Interlaken

Interlaken é o destino perfeito para terminar esta jornada sem pressa. Entre os lagos Thun e Brienz, a cidade vive do encontro das águas com os Alpes, e talvez por isso, tenha aprendido a respeitar o tempo. Há sempre uma montanha a contemplar, uma lancha ancorada e um café servido com vista para o azul.
Desde a proa da primeira classe do barco, vimos imponentes castelos medievais nas encostas, vinhedos e pequenos vilarejos até chegar a Thun, uma cidade encantada. Seu centro histórico preservado, fontes e fachadas decoradas inspiraram contos, fashionistas, arquitetos, viajantes e quem aqui escreve.
O retorno a Interlaken acontece sob um pôr do sol que tinge montanhas e reflete o dia na água calma.
O barco segue silencioso, como se soubesse que aquele espetáculo pede contemplação. Essa imagem que dura, de uma Suíça sem pressa, em uma era tão corrida, é, além de rara, de um valor difícil de calcular.





