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JOÃO DORIA FALA SOBRE ‘FALTA DE LÍDERES’

A capacidade de um país andar mais rápido depende da qualidade de seus líderes, perfis que abrem caminhos e desfazem obstáculos com sua condição de atrair, comover, inspirar, entusiasmar as plateias e mobilizar as massas. No passado, os rastros das grandes lideranças deixavam se ver nas trilhas abertas para libertar seus países da opressão e da miséria.

Eram tempos da política elevada ao altar da alta expressão. Atores políticos se revezavam na missão de debater, nas réplicas e tréplicas, argumentos e fundamentos sólidos do pensamento. O rebaixamento da qualidade na maneira de operar a política tem muito a ver com a crise da democracia representativa em todos os quadrantes. Nas últimas três décadas, o mundo foi arrastado por uma carga monumental de eventos, como a queda do Muro de Berlim, em 1989, e a ruptura da URSS e extinção da Guerra Fria, cujos efeitos se fizeram sentir nos instrumentos da representação: arrefecimento das doutrinas; pasteurização dos partidos; perda de força dos Parlamentos e desengajamento das massas. Essa teia de situações contribuiu para a crise global de governabilidade.

Importantes mudanças passaram a balizar as frentes social e política. Uma nova consciência se instalou no meio de muitas sociedades. Partidos tradicionais, nascidos e desenvolvidos a partir de discursos assentados em eixos doutrinários – conservadores e liberais, de direita e esquerda – perderam substância com o declínio das ideologias e a extinção das clivagens partidárias, amparadas no antagonismo de classes. A expansão econômica e a diminuição do emprego no setor secundário em proveito do setor terciário estiolaram a força das estruturas de mobilização e negociação. Novos movimentos se formaram e os grupamentos corporativos cresceram na esteira de uma micro-política voltada para a defesa pragmática de setores, regiões e comunidades.

Nessa moldura, a democracia representativa passou a ser também exercida pelo universo de entidades intermediárias, com forte prejuízo para a instituição política tradicional. Não é à toa que os nomes de candidatos prevalecem sobre partidos.

Emergem, nesse cenário, lideranças menos carismáticas, mais técnicas, com preocupações estratégicas que se repartem em algumas esferas: a estabilização macroeconômica; os programas de desenvolvimento e os ajustes fiscais; as redes de proteção social e as políticas públicas de saúde, de educação e segurança. Nos últimos tempos, o combate à corrupção assumiu prioridade.

Nesse terreno não vicejam mais líderes carismáticos e populares. Por aqui, Lula é o último líder de massas de um ciclo que se esgota com a intensificação da crise política. Na verdade, Lula se apresenta como a última instância produzida por um processo de acumulação de forças, que, há três décadas, vem operando sobre a esfera social, juntando ações coletivas e públicas, demandas por direitos, e movimentos cívicos, canalizados com força a partir da Constituição de 88.  A corrupção deslavada, que deixa a cara do país mais parecida com uma gigantesca delegacia de polícia, está levando de roldão atores políticos para o lamaçal. A era Lula está no fim.

Desaparecendo o formato carismático e populista, teremos de conviver com grupos de políticos treinados nas artimanhas da articulação e dos entreveros partidários. Os brasileiros começam a não enxergar mais aquela aura que envolvia seus ícones e heróis, o líder glorificado, admirado por todos.  Não há mais quadros que mereçam a admiração e o engajamento entusiasmado. É assim que o Brasil vai enxertando em sua galeria lideranças sem massas. Ou massas sem líderes.

João Doria, empresário e jornalista, é presidente do LIDE – Grupo de Líderes Empresariais


JOÃO DORIA TALKS ABOUT ‘LACK OF LEADERS’

The ability of a country walk faster depends on the quality of its leaders, profiles that open paths and break barriers with their condition to attract, move, inspire, enthuse audiences and mobilize the masses. In the past, the traces of the great leaders left to see the trails open to free their country from oppression and misery.

 It was a time of high political to the altar of high expression. Political actors took turns on the task of discussing, in the replies and rejoinders, arguments and solid foundations of thought. The lowering of quality in the way they operate the policy has a lot to do with the crisis of representative democracy in all quarters. Over the past three decades, the world has been dragged by a monumental load events such as the fall of the Berlin Wall in 1989 and the breakdown of the USSR and extinction of the Cold War, whose effects were felt in the representation instruments: the cooling doctrines; Pasteurization of the parties; loss of strength of Parliaments and disengagement of the masses. This web of situations contributed to the global crisis of governance.

Major changes began to mark out the social and political fronts. A new consciousness is installed in the middle of many societies. Traditional parties, born and developed from speeches seated in doctrinal axes – conservative and liberal, right and left – lost substance with the decline of ideologies and the extinction of party divisions, supported in class antagonism. Economic expansion and the decrease in employment in the secondary sector in favor of the tertiary sector estiolaram the force of mobilization and negotiation structures. New movements have formed and corporate groups grew in the wake of a micro-policy focused on the pragmatic defense sectors, regions and communities.

In this framework, representative democracy has become also exercised by the universe of intermediate entities, with strong damage to the traditional political institution. No wonder that candidates names prevail over parties.

Emerge, in this scenario, less charismatic leaders, more technical, with strategic concerns that are distributed in some spheres: macroeconomic stabilization; development programs and fiscal adjustments; networks of social protection and public health policies, education and security. In recent times, the fight against corruption took priority.

In this field not thrive most charismatic and popular leaders. This way, Lula is the last leader of masses of a cycle that runs out with the intensification of the political crisis. In fact, Lula is presented as the ultimately produced by a process of accumulation of forces, which for three decades, has been operating on the social sphere, joining collective and public actions, demands for rights, and civic movements, channeled with force the Constitution of 88. The rampant corruption, which leaves the face more like country with a huge police station, is has swept away political actors to the mire. The Lula era is over.

Disappearing the charismatic and populist format, we will have to live with political groups trained the antics of the joint and party run-ins. Brazilians begin to not see more the aura that enveloped their icons and heroes, the glorified leader, admired by all. There are more pictures that deserve the admiration and the enthusiastic engagement. This is how Brazil will grafting to his gallery leaders without masses. Or masses leaderless.

João Doria, businessman and journalist, is president of LIDE – Business Leaders Group

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