Conversa com a Chief Tourism Officer de Ruanda: como o país conquistou o turismo de luxo

Você conhece algum destino que permita avistar o Big Five em poucas horas de safári, caminhar entre majestosos gorilas-de-montanha, escalar cinco vulcões, atravessar uma zipline de 2 km na segunda maior floresta da África e ainda praticar birdwatching com mais de 700 espécies? Adicione a isso a experiência de remar em lagos ao amanhecer, tudo sob absoluta segurança e zero burocracia. A resposta para essa combinação improvável é Ruanda.

Em entrevista exclusiva, Irene Murerwa, Diretora de Turismo do país, detalhou como este território compacto se tornou um completo éden para o mercado premium.

O diferencial ruandense reside na densidade de experiências. Enquanto em outros destinos africanos a busca pelos leões e rinocerontes pode levar dias, a política de baixo volume de Ruanda permite que o viajante encontre a fauna selvagem no Parque Nacional de Akagera em tempo recorde.

No Parque Nacional de Nyungwe, a biodiversidade é protagonista, oferecendo desde o desafio físico do trekking nos vulcões até a serenidade da pesca artesanal nos lagos Ihema e Kivu.

Para o brasileiro, a conveniência é o toque final: o visto é concedido na chegada, eliminando qualquer barreira de entrada.

Ruanda busca o impacto positivo e não o turismo de massa. A estratégia “low volume, high value” é o pilar que sustenta a exclusividade do destino. Ao limitar o número de visitantes, o país garante, além da preservação ambiental, uma experiência de isolamento sofisticado que atrai as marcas de hospitalidade mais prestigiadas do globo, como One & Only, Singita e Wilderness. Esta curadoria de luxo é complementada por uma visibilidade global estratégica, consolidada através de parcerias com gigantes do esporte como Paris Saint-Germain e Arsenal.

Segundo Irene, essa abordagem protege o ecossistema e eleva o ticket médio, garantindo que cada visitante contribua significativamente para a economia local sem sobrecarregar os recursos naturais. É um modelo de negócio onde a escassez gera valor e a sustentabilidade é o ativo mais precioso da marca país.

Por que o viajante latino-americano escolhe Ruanda

O perfil do turista sul-americano, especialmente o brasileiro, tem se mostrado uma das demografias mais promissoras para o destino. Diferente do visitante europeu, o latino busca a aventura autêntica aliada ao conforto extremo. Ruanda oferece o que Quênia e Tanzânia, com suas infraestruturas de décadas, muitas vezes não conseguem entregar, como a exclusividade absoluta e a agilidade logística. Em uma viagem de apenas 10 dias, é possível transitar da savana para a floresta tropical e para os picos vulcânicos, algo geograficamente impossível em vizinhos de maior extensão territorial.

Turismo responsável que funciona

A conservação em Ruanda é um caso de sucesso mensurável. A população de gorilas-de-montanha, em outros tempos em declínio crítico, apresenta crescimento constante. O segredo? O Programa de Compartilhamento de Renda do Turismo, que destina 10% de toda a receita dos parques nacionais diretamente para as comunidades vizinhas. Este investimento em infraestrutura e educação transformou antigos caçadores em guias especializados e guardiões da floresta. “A conservação tornou-se a principal fonte de renda dessas famílias”, destaca Irene, reforçando que a coexistência entre humanos e vida selvagem é a base do modelo ruandense.

Infraestrutura de ponta para o viajante exigente

A experiência premium começa em Kigali, frequentemente citada como a cidade mais limpa e organizada da África. Como o 6º país mais seguro do mundo, Ruanda oferece uma tranquilidade rara em destinos de aventura. A conectividade aérea também evoluiu. Hoje, é possível sair do Brasil e desembarcar em solo ruandense em menos de 24 horas. Com uma infraestrutura MICE (Meetings, Incentives, Conferences and Exhibitions) de classe mundial, incluindo arenas modernas e campos de golfe profissionais, o país prova que a modernidade urbana pode caminhar lado a lado com a natureza selvagem.

O café de alta qualidade e a paixão por futebol são apenas algumas das afinidades entre Brasil e Ruanda. Há uma união mais profunda, enraizada na herança africana e em valores compartilhados. O objetivo do governo ruandense é transformar essa conexão em um intercâmbio bilateral robusto. Ao desvendar esses tesouros exclusivos, Ruanda se posiciona como um destino de férias e também como um parceiro cultural e comercial estratégico, provando que o futuro do turismo de luxo é, acima de tudo, consciente, seguro e profundamente humano.

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Laura Kassab