Talvez um dos maiores desafios de quem chega a Gramado pela primeira vez seja confirmar a alta expectativa criada em torno do destino. No meu caso, a resposta veio bem rápido. Bastaram as primeiras horas na cidade para perceber que a fama não se sustenta apenas pelo apelo turístico, mas por uma construção consistente de experiências pensadas nos mínimos detalhes. Ali, a história não se limita à memória, mas se mantém viva, atravessando sua gastronomia ímpar, os eventos anuais e seus símbolos locais que ajudaram a consolidar a cidade no cenário nacional.
Apenas 1h40 separam Porto Alegre da Serra Gaúcha. O cenário cercado pelo verde, o ritmo desacelerado e a arquitetura de influência predominantemente germânica constroem a atmosfera que equilibra tradição e hospitalidade. Embora ainda seja associada a um destino pensado para toda a família com atrações durante o ano, Gramado também reúne uma camada menos óbvia, com um olhar pensado em experiências mais exclusivas.
Dentro dessa proposta personalizada, o Cristais de Gramado se destaca como uma das experiências mais autênticas da cidade. Referência na produção de cristal artístico no país, o espaço convida o visitante a mergulhar no processo de criação, do sopro ao acabamento, revelando o cuidado minucioso em cada etapa – principalmente no começo do tour, quando é apresentada a maior e mais valiosa peça de cristal do Brasil, composta por cerca de 1.200 elementos coloridos que beiram a perfeição. A visita ganha um molho ainda mais especial quando, sob orientação dos artesãos, é possível criar o próprio cristal, tornando a experiência não apenas exclusiva, mas também profundamente pessoal.

A herança cultural ecoa em outras camadas da cidade. No centro, museus e espaços culturais ajudam a contar a história de uma Gramado marcada pela imigração europeia, sobretudo italiana e alemã. É desse legado que nascem dois de seus maiores símbolos: o vinho e o chocolate, responsáveis por consolidar o destino como uma das principais referências nacionais, não apenas pela produção, mas pelo estilo de vida que carregam.



É nesse cenário que as vinícolas Ravanello e Casa Seganfredo se inserem de forma natural. Ambas de origem familiar e com rótulos premiados destinados ao público final, carregam em seus processos um cuidado que se reflete tanto na produção quanto na experiência oferecida. Na Ravanello, a degustação é conduzida com sensibilidade, revelando conhecimento e peculiaridades do mundo do vinho. Já na Casa Seganfredo, as manhãs de sábado são conduzidas por uma experiência que une música e paisagem. No entanto, em ambas as vinícolas o vinho não é apresentado como produto, mas sim como uma filosofia de vida carregada de história.



Assim como o vinho, o chocolate também encontra em Gramado uma expressão consistente. Hoje, a cidade reúne marcas premiadas que a consolidam como uma das principais referências nacionais na produção artesanal da iguaria. Entre elas, a Prawer é reconhecida como pioneira na introdução do chocolate na região e responsável por estabelecer, desde 1975, as bases dessa tradição. Já a Miroh, fundada em 2020, desponta como um dos nomes mais relevantes do cenário contemporâneo, acumulando prêmios internacionais mesmo em um curto espaço de tempo. Ambas as marcas compartilham o controle total sobre cada etapa, da seleção da amêndoa de cacau ao produto final, e permitem que o visitante acompanhe de perto esse processo. Assim como o vinho, o chocolate deixa de ser apenas consumo e passa a ser experiência.
Outro fio condutor da viagem é a paisagem. Localizado em uma área rural privilegiada, o Olivas de Gramado é um dos grandes atrativos da cidade e possui vistas impressionantes para os vales que se estendem até a região dos cânions. O espaço nasceu a partir de uma iniciativa familiar que transformou a tradição olivícola em experiência. Mais do que um parque, o Olivas é daqueles lugares para passar o dia inteiro e suas atividades foram pensadas para todos os tipos de viajantes. O espaço possui desde opções de aventura à degustação de azeites produzidos ali mesmo, passando por trilhas, fazendinha e tours rurais que aproximam o visitante do território. No final de tarde, contemplar o pôr do sol nos cânions ao som de música eletrônica e bons drinks é indispensável.
Experiências gastronômicas que vão além do menu
É inevitável dizer que, quando o assunto é gastronomia, Gramado também cumpre além do esperado. Neste caso, percebi como existe um cuidado cada vez mais evidente em dar identidade aos restaurantes, onde o propósito por trás de cada um torna as experiências ainda mais especiais.
No Catherine Gramado, um dos ícones da cidade, a força feminina é o principal fio condutor e a originalidade, desde o lugar em que está instalado até a estátua que materializa a Catherine, é impressionante. O restaurante aposta na culinária francesa, mas um dos principais destaques é o trio de fondue com uma seleção impecável de queijos, carnes e doces harmonizados com rótulos de vinhos premiados. Na mesma linha, mas com uma abordagem mais descolada e contemporânea, o Soleil Casa Perini traz a cozinha italiana para o coração da cidade, com massas frescas preparadas à vista e um ambiente que mistura arte, história local e os rótulos da vinícola. Ambos os restaurantes pertencem ao mesmo grupo e seguem um padrão altíssimo de qualidade, é indispensável não colocar no roteiro por Gramado.



Em paralelo, há espaços que apostam na técnica como protagonista, como o Ocre, no Wood Hotel, que imprime o olhar refinado da Chef Roberta Sudbrack em um menu que valoriza ingredientes, texturas e processos durante o jantar e o café da manhã. O restaurante é um dos primeiros a ter uma carta destinada a águas, assinada pelo sommelier Gustavo Buske, uma curadoria incomum, mas precisa, que amplia a experiência para além do prato.
Já em um ritmo mais desacelerado, o Casa Figueira convida a uma pausa ao ar livre, com uma gastronomia que flerta com o afeto e se estende até o gesto de colher o próprio chá ao final da refeição. Enquanto isso, a Osteria di Lucca reafirma a influência italiana na região sob uma perspectiva mais criativa, com combinações que atualizam sabores, como o risoto de hortelã com cordeiro.
Onde se hospedar em Gramado?



Para fechar a viagem, nada como se hospedar em um hotel que preza pelos mínimos detalhes. O Wood Hotel sintetiza bem uma Gramado mais contemporânea, que se afasta do óbvio sem romper com a essência da serra. Parte do grupo Casa Hotéis, o hotel-boutique aposta em uma proposta intimista, com apenas 28 suítes e hospedagem no estilo adults only, permitindo a entrada de maiores de 14 anos. Desde a entrada, tudo ali convida para uma experiência sensorial: a iluminação mais baixa, o design bem resolvido e até o aroma característico, que acaba se tornando uma assinatura do lugar. Durante as noites, o destaque vai para o ‘ritual do sono’, com um menu de travesseiros à disposição, chá para relaxar e música ambiente, tudo delicadamente preparado para aproveitar o melhor do relaxamento à noite.
O Wood propõe uma estadia mais fluida, onde o check-in pode acontecer sem formalidades e os espaços se integram com naturalidade. É o tipo de hotel que entende o novo viajante, aquele que valoriza estética, conforto e, principalmente, a sensação de estar em um lugar com identidade. Mais do que hospedagem, entrega uma experiência coerente do início ao fim, em sintonia com uma Gramado que segue se reinventando.





